segunda-feira, 21 de março de 2022

COSTURA DA SAUDADE



Na mesa de trabalho, há um lindo guardanapo feito de retalhos coloridos, que eu ganhei de uma amiga, na última vez que estive em São Paulo. A amada professora Kazuyo. Sobre ele estão duas fatias de pão integral com manteiga, uma fatia de queijo amarelo e uma xícara de café com leite de aveia, sem açúcar. 

O que nós não vemos é a saudade contida nesse simples café da manhã recheado de lembranças, a memória interna que dança no coração da nostalgia. O guardanapo foi escolhido com delicadeza e propósito porque hoje, mais do que ontem, a saudade grita dentro do meu corpo inteiro, ela berra em meu ser. Neste pano, pedaços de histórias são unidos com as linhas do amor e do afeto. 

A lembrança da costura da minha mãe, assim como ela, segue eternizada em mim. Nos tempos mais difíceis, mamãe fazia as nossas roupas à mão: blusas, vestidos, calças, camisas, saias... 

O pão era feito em casa, no forno à lenha. Em tempos melhores, as roupas eram costuradas à máquina. Depois começamos a adquiri-las em lojas, muitas vezes à prestação. Os pães passaram a ser comprados.

 São Paulo sempre teve inúmeras padarias, perfumadas de sabores. Os seus cheiros povoam os meus sentidos, sensações e sentimentos que me acompanham desde o comecinho da minha adolescência até hoje. Sim, eu ainda sinto os seus aromas impregnados em mim.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

ELA ESPERANÇOU

Da janela da cozinha ela olhava lá fora. Via o vazio que havia entre o vento e as árvores sem folhas. Era inverno e as folhas sempre caem já no outono.
O olhar dela caminhou lento e quase sem energia, acompanhando um pequeno movimento que tinha numa árvore ainda úmida da neblina da última noite.
Era um minúsculo pássaro azul e verde que voava miúdo. Do olhar da mulher de quarenta anos felizes antes, reascendeu um brilho.
Ela esperançou novamente. Desistiu de morrer.
Terezinha Malaquias
@terezinhamalaquias


 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

DO JEITO DA GENTE - Resenha



 RESENHA

Por Elen Arcangelo

“Do jeito da gente”, de Terezinha Malaquias, é a perfeita junção de uma obra infantil,
lúdica e também muito consciente. A história é narrada em primeira pessoa por Alice, uma
adorável garota de dez anos que vive em São Paulo com seus pais e sua irmãzinha Thaís, que
nos conta um pouco do seu cotidiano: seu dia-a-dia na escola, seus passeios favoritos e a
convivência com a sua família. Por ter uma criança como narradora, o livro ganha um nível de
personalidade muito forte e aumenta a conexão dos(as) pequenos(as) com a obra, como se
tivessem ganhado uma nova amiga, ao mesmo tempo, a linguagem simples e descontraída
torna a leitura agradável e acessível para todos(as). Num complemento perfeito e
acrescentando charme e delicadeza, a obra é permeada por lindas ilustrações aquareladas:
tanto a Alice quanto seus mais diversos colegas, sua família e seus lugares prediletos são
representados de maneira bela e alegre.
O ponto mais interessante do livro são as análises e percepções da Alice sobre o
mundo que a cerca, como quando ela diz que cada coleguinha é diferente (baixos ou altos,
com cabelos compridos ou curtos, olhos verdes ou castanhos...), mas que, na verdade, todos
somos iguais. Esse é o tipo de situação com a qual toda a criança irá se deparar, e a conclusão
da Alice é uma ótima introdução para abordar temas como o respeito, a inclusão e a
igualdade, que são cruciais para a formação de pessoas solidárias e empáticas.
O livro dá uma forte base para que as crianças possam pensar sobre o tema a partir
de suas próprias vivências. Por isso, ao final, os leitores são convidados a contar suas
experiências nas páginas como uma conversa entre a Alice e seus colegas. É muito importante
ressaltar que o livro também trata sobre o bullying e promove a valorização das crianças
através de suas próprias características, como por exemplo o cabelo cacheado dos negros. A
representatividade, portanto, não é um conceito que passa batido pela leitura, mas somos
contemplados com trechos que exaltam a importância da nossa auto-estima.
O fato do livro ser bilíngue, porém ter um discurso bastante simples, torna-o muito
útil como uma ferramenta para apresentar uma nova língua às crianças. A comparação entre
um idioma e outro pode ser feita de maneira muito clara e por isso, a obra é uma excelente
facilitadora na compreensão do texto em língua estrangeira.
Por fim, “Do jeito da gente” é uma obra multifacetada que nos dá base para abordar
diversos assuntos com os(as) meninos(as) e por isso é altamente recomendada para quem
procura literatura infantil de qualidade.

Autora: Terezinha Malaquias
Ilustrações: Sandra Sampaio Rodrigue
Olimalabo Verlag Editora
Ano da publicação: 2021
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

SIGAMOS

Ontem, 14/05/2020, fez um mês que eu não saio de casa para trabalhar fora. Tenho tido uma rotina tranquila e em paz. De verdade  Mas não estou feliz pq é impossível ser feliz nesse momento com tantas pessoas doentes em suas casas, internadas em hospitais, tem aquelas pessoas que precisam ir para o hospital mas não têm acesso a ele. E inúmeras mortes ao redor do mundo provocadas pelo covid 19. Quanta dor, quanta tristeza. É horrível me sentir impotente diante de todo esse sofrimento. Quem já teve a doença e sofre com o preconceito e a maldade de quem ainda não ficou doente. Quem morreu sozinha/sozinho e sem um velório digno com a presença da família, amigos, abraços, beijos, aconhego, colo tão necessário em momentos de dor. Principalmente na hora da morte. Não se pode despedir de quem se ama. Não se pode ser consolada/consolado presencialmente. Mas ainda é permitido chorar, chorar, chorar.

Quando tudo isso vai passar ainda não sabemos. O fato é que estamos vivendo o momento que a terra literalmente parou e estamos perdidas/perdidos sem saber para onde caminhar e nem como caminhar. Como continuar?

Cada dia é um novo dia. Estou celebrando a cada novo amanhecer, a vida e a saúde da minha família, das minhas amigas, dos meus amigos, de gente que eu não conheço e provavelmente nunca vou conhecer. Mas sei que eu em algum lugar do mundo milhões de pessoas acordaram saudáveis. E a vida continua mesmo na dor, na doença e na tristeza. Sigamos até quando der.

RESISTÊNCIA


   RESISTÊNCIA

Autora: Terezinha Malaquias

Na volta para casa carregados de compras do supermercado, meu marido e eu vimos na parede de uma casa vizinha a nossa, essa rosa.

Normalmente eu passo por ela com mais frequência, pq fica no caminho para eu pegar o bonde.
Anualmente faço inúmeras fotos desse pé de roseiras quase sempre carregado.

Mas agora é inverno e os dias são bem frios por aqui.

A rosa estava lá, sozinha e embelezando a estação fria e com pouco sol. Ela me fez parar e contemplar sua beleza única e resistente.

Ela estava lá para nos lembrarmos que 2020 não foi um ano fácil. Foi muito triste e cruel para muitas pessoas. Milhares delas no mundo não resistiram e perderam suas vidas para o vírus.

Milhares perderam seus trabalhos. Tiveram seus salários que já era pouco, reduzidos. E a fome aumentou no mundo. Assim como pessoas sem teto se espalham pelas cidades sem proteção. Sem moradia, mesmo sendo direito de todas/todos nós.

E com a pandemia, muitas mulheres foram mortas por seus companheiros ou ex. Essa estatística tem que mudar. Nenhuma mulher merece ser morta por questão de gênero.

A vida feminina não é propriedade de nenhum homem. Quer seja ele pai, amigo, amante, desconhecido, marido, ficante... A vida é só dela.

É preciso educar nossa sociedade, sobretudo nossas crianças e jovens. Precisamos aprender que ninguém é dona/dono da outra vida. Só assim, vamos reduzir essa taxa absurda de mortes diárias. É necessário para com a violência urgente. E valorizar a vida que é única.

E o nome da rosa solitária, passou a ser Resistência.

A imagem pode conter: planta, flor, atividades ao ar livre e natureza
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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

NATAL / 2020


 


NATAL / 2020


Eu já era bem minimalista quando morava no Brasil. Mas desde que vim morar em terras germânicas, me tornei cada vez mais. E o melhor de tudo, estou amando a mulher eu sou. Sinto-me melhor todos os anos e quero continuar nessa linha de busca por conhecimento e aprendizado enquanto eu estiver nessa terra.

Esse ano que foi atípico para o mundo com a presença do covid19, ameaçando e levando vidas de todas as idades e em toda parte do planeta, estamos contando os dias para que ele termine. E que o ano novo, nova década nos dê esperança, amor incondicional, cura, fé, justiça.

Meu marido e eu optamos por não viajarmos nesse momento e passamos só nós dois a noite de Natal e hoje o dia de Natal. Aqui em casa, não falta bons livros para lermos e no meu caso, estórias e histórias para escrever.

Já na segunda feira, eu perguntei para o Gerhard, (meu marido), o que faríamos para o nosso jantar na noite do dia 24/12?! Ele respondeu sem pensar. „Não precisa ser nada especial“. De verdade eu já esperava por essa resposta. Afinal, eu o conheço um pouquinho.

Fomos juntos na terça feira ao supermercado e enchemos o carrinho de compras e nossas mochilas também. Não temos carro porque não queremos e não precisamos. Quando realmente um carro se faz necessário em nossas vidas, o Gerhard aluga por algumas horas, dia inteiro ou alguns dias, quando fazemos uma viagem.

Bem, voltando às compras moramos a mais ou menos um quilômetro de distância do supermercado. E é bem tranquilo ir e voltar a pé carregando-as.


JANTAR DO DIA 24/12/2020


Planejamos jantar cedo, entre 19.30-20.00 horas. E pontualmente 20H nos sentamos à mesa para o nosso banquete saudável e delicioso. Sopa de abóbora amarela (comum por aqui no inverno alemão). Fiz com leite de coco. E uma torta de espinafre, alho poró, queijos, farinha de amêndoas e camarão. Ficou leve e muito gostoso. Era o que queríamos. Pouca comida e leveza. Sobremesa tinha chocolate 85% cacau para mim. Eram pequenos e finos bomboms. De presente eu ganhei um concerto de violão feito pelo meu amor que toca lindamente e emociona quem ouve. Uma música que ele compôs.

A meia noite brindamos o aniversariante. Eu especialmente rezei, rezei e rezei agradeci-o.

Nos sentamos no sofá para enviar mensagens para nossa família brasileira e alemã e, responder/agradecer outras tantas recebidas.

Por volta das 02.00 da manhã desligamos as luzes do nosso Lar e embalamos no sono. Antes de dormir eu, ainda consegui meditar por alguns minutos. Foi meditação-agradecimento.

Hoje 25/12, o dia acordou-me um por volta das 09.00H. Olhei para a janela e vi que o dia estava escuro, sem sol. A temperatura era zero grau. Olhei para dentro do meu Lar e vi luzes acessas e percebi o quanto eu tenho para agradecer. E o quanto eu tenho para rezar e pedir ao Criador pelas famílias enlutadas. Que perderam seus entes queridos nesse momento e não puderam sequer receber um abraço, um beijo de consolo. Que não puderam e não podem ter um colo físico nesse ano. Que o Criador, Universo possa acolher nos braços quem partiu e beijar o coração de quem ficou com a saudade!


Feliz Natal, e que ele seja cada vez mais simples, amoroso, respeitoso e solidário!